SEM ADEUS
12 DE MARÇO
O INVENTÁRIO DAS SOMBRAS: UMA SÍNTESE
Olho para trás e vejo três atos de uma tragédia que eu jamais escolhi escrever. O que começou com o choque de uma "trigésima quarta primavera" precocemente interrompida, transformou-se em uma peregrinação por um deserto que eu não sabia existir. Primeiro, veio a paralisia. Fui forçado a erguer paredes de uma fortaleza que eu não desejava habitar, sustentando o peso de um luto que as palavras alheias, em sua vã tentativa de consolo, apenas tornavam mais denso. Eu era o guardião de um silêncio que ninguém mais ousava respeitar.
Mas o recolhimento me foi negado. Vi a sacralidade da minha dor ser profanada por abutres que chamam a si mesmos de jornalistas, mas que apenas mercadejam o sofrimento. Fui chamado de canalha e de ladrão enquanto tentava, em vão, proteger a memória de quem não podia mais se defender. Entendi, ali, que a maldade humana não respeita o luto; ela se alimenta dele. O meu silêncio, que deveria ser um templo de saudade, tornou-se uma trincheira contra insultos e julgamentos de quem nada sabe sobre o que foi construído em anos de cumplicidade.
Agora, encontro-me no abismo. Percebo que a minha maior falha foi a ingenuidade de acreditar na perenidade da luz. Romantizei a existência, ignorando que cada sorriso daqueles tempos áureos era apenas o prelúdio de uma ressaca inevitável. A alegria não era um estado de graça, mas uma embriaguez que agora cobra seu preço em latejar visceral, letargia profunda e uma solidão que me hostiliza a cada despertar.
Em suma, o que resta após esses tempos de agonia não é a superação, mas a clareza amarga. A vida não é feita de flores, mas de uma alternância cruel onde o martírio parece ser o único mestre capaz de nos ensinar a real dimensão do vazio. Entre o ontem que se foi e o abismo que me habita, resta apenas a dignidade de um adeus que o mundo tentou roubar, mas que eu guardo, sob chaves de ferro, no que ainda resta de mim.
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