SEM ADEUS

 12 DE MARÇO

CAPÍTULO 2: A RECORRENTE LEMBRANÇA


As manhãs, que agora ostentam temperaturas mais amenas, já não carregam o fervor das emoções de outrora; o declínio dos dias fez com que minha alma encontrasse morada na tristeza. Dizem que o dever é viver o presente, mas o que eu verdadeiramente anseio é a possibilidade de habitar os tempos que se foram.

No momento em que deveríamos convergir forças, quando a dor exigia que fôssemos um só, a natureza humana revela-se de uma crueldade avassaladora. Pseudojornalistas difundem informações inverídicas, enquanto outros, em uma busca incessante por engajamento, propagam imagens e vídeos absolutamente desrespeitosos.

Surgem figuras cuja existência eu sequer recordava, ávidas por um quinhão deste "espetáculo". Ora, não estamos em confraternização! Não há o que celebrar! Será que me permitirão, ao menos, viver o luto? Quando acredito que a única dor seria a ausência de quem partiu, vejo-me cercado por cobranças e insultos — chamam-me de canalha, de ladrão. O que terei feito? Por vezes, parece que sou eu o próprio autor desta tragédia.

Diante do tribunal implacável da ignorância e da exploração alheia, resta-me o silêncio como último refúgio. É amargo constatar que, enquanto busco forças para lidar com o vazio da perda, o mundo ao redor se ocupa em distorcer a realidade e profanar a memória do que vivemos. Entre acusações infundadas e o oportunismo de quem observa de longe, sigo tentando resgatar, em meio às cinzas desse caos, a dignidade de um adeus que me foi negado pela maldade humana.

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