SEM ADEUS
12 DE MARÇO O INVENTÁRIO DAS SOMBRAS: UMA SÍNTESE Olho para trás e vejo três atos de uma tragédia que eu jamais escolhi escrever. O que começou com o choque de uma "trigésima quarta primavera" precocemente interrompida, transformou-se em uma peregrinação por um deserto que eu não sabia existir. Primeiro, veio a paralisia. Fui forçado a erguer paredes de uma fortaleza que eu não desejava habitar, sustentando o peso de um luto que as palavras alheias, em sua vã tentativa de consolo, apenas tornavam mais denso. Eu era o guardião de um silêncio que ninguém mais ousava respeitar. Mas o recolhimento me foi negado. Vi a sacralidade da minha dor ser profanada por abutres que chamam a si mesmos de jornalistas, mas que apenas mercadejam o sofrimento. Fui chamado de canalha e de ladrão enquanto tentava, em vão, proteger a memória de quem não podia mais se defender. Entendi, ali, que a maldade humana não respeita o luto; ela se alimenta dele. O meu silêncio, que deveria ser um templo de...