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Mostrando postagens de abril, 2026

SEM ADEUS

 12 DE MARÇO O INVENTÁRIO DAS SOMBRAS: UMA SÍNTESE Olho para trás e vejo três atos de uma tragédia que eu jamais escolhi escrever. O que começou com o choque de uma "trigésima quarta primavera" precocemente interrompida, transformou-se em uma peregrinação por um deserto que eu não sabia existir. Primeiro, veio a paralisia. Fui forçado a erguer paredes de uma fortaleza que eu não desejava habitar, sustentando o peso de um luto que as palavras alheias, em sua vã tentativa de consolo, apenas tornavam mais denso. Eu era o guardião de um silêncio que ninguém mais ousava respeitar. Mas o recolhimento me foi negado. Vi a sacralidade da minha dor ser profanada por abutres que chamam a si mesmos de jornalistas, mas que apenas mercadejam o sofrimento. Fui chamado de canalha e de ladrão enquanto tentava, em vão, proteger a memória de quem não podia mais se defender. Entendi, ali, que a maldade humana não respeita o luto; ela se alimenta dele. O meu silêncio, que deveria ser um templo de...

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12 DE MARÇO CAPÍTULO 3: ENTRE O ONTEM E O ABISMO  Existem momentos em que a esperança parece esvair-se por completo; instantes em que o coração pulsa em um ritmo cujo motivo nos escapa à compreensão. Cruzamos caminhos com pessoas ao longo da jornada e, ingenuamente, supomos que a caminhada será eterna. Até que, subitamente, surge uma bifurcação e, quando despertamos para a realidade, aquele que nos acompanhava já não está mais ao nosso lado. Quando cessaremos de romantizar a existência? Por que persistimos em erros tão reiterados? Nós, a despeito de tanto sofrimento, buscamos incessantemente um porto seguro, algo que nos traga plenitude. Não fomos concebidos para o isolamento absoluto; talvez resida aí a razão de nossa busca. Embora esta avalanche de preocupações, eventos e melancolia me consuma agora, nem sempre foi assim. A alegria também habitou meus dias, e não por um breve período — pelo contrário, foi minha constante até poucos dias atrás. Entretanto, a vida não se resume a f...

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 12 DE MARÇO CAPÍTULO 2: A RECORRENTE LEMBRANÇA As manhãs, que agora ostentam temperaturas mais amenas, já não carregam o fervor das emoções de outrora; o declínio dos dias fez com que minha alma encontrasse morada na tristeza. Dizem que o dever é viver o presente, mas o que eu verdadeiramente anseio é a possibilidade de habitar os tempos que se foram. No momento em que deveríamos convergir forças, quando a dor exigia que fôssemos um só, a natureza humana revela-se de uma crueldade avassaladora. Pseudojornalistas difundem informações inverídicas, enquanto outros, em uma busca incessante por engajamento, propagam imagens e vídeos absolutamente desrespeitosos. Surgem figuras cuja existência eu sequer recordava, ávidas por um quinhão deste "espetáculo". Ora, não estamos em confraternização! Não há o que celebrar! Será que me permitirão, ao menos, viver o luto? Quando acredito que a única dor seria a ausência de quem partiu, vejo-me cercado por cobranças e insultos — chamam-me de...

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12 DE MARÇO CAPÍTULO 1: O RECOMEÇO É impressionante como a vida se transmuta em um átimo. Ontem celebrávamos; hoje, estamos todos enlutados. A morte é uma tempestade que desaba sem aviso, sem o estrondo dos trovões ou o prenúncio de nuvens carregadas; chega sem os alertas da defesa civil. Ela, cujo sorriso era constante e o brilho inabalável, acabara de atravessar sua trigésima quarta primavera quando o destino sobressaltou a família e paralisou o centro da cidade. Em meio à tarde, para a multidão, tratava-se apenas de um obstáculo obstruindo o fluxo urbano; para outros, não passava de uma manchete passageira. Para os amigos, o inacreditável. Para a família, a perda de uma peça fundamental que já projeta um vazio imensurável. Eu, que a tinha como depositária de meus segredos, vi-me seco de lágrimas, paralisado pela incredulidade que ainda me habita. Antes tivesse chorado copiosamente; quem sabe, se eu tivesse vivido o luto em sua crueza — submergindo na depressão, ocultando-me sob o co...