SEM ADEUS
12 DE MARÇO
CAPÍTULO 1: O RECOMEÇO
É impressionante como a vida se transmuta em um átimo. Ontem celebrávamos; hoje, estamos todos enlutados. A morte é uma tempestade que desaba sem aviso, sem o estrondo dos trovões ou o prenúncio de nuvens carregadas; chega sem os alertas da defesa civil.
Ela, cujo sorriso era constante e o brilho inabalável, acabara de atravessar sua trigésima quarta primavera quando o destino sobressaltou a família e paralisou o centro da cidade. Em meio à tarde, para a multidão, tratava-se apenas de um obstáculo obstruindo o fluxo urbano; para outros, não passava de uma manchete passageira. Para os amigos, o inacreditável. Para a família, a perda de uma peça fundamental que já projeta um vazio imensurável.
Eu, que a tinha como depositária de meus segredos, vi-me seco de lágrimas, paralisado pela incredulidade que ainda me habita. Antes tivesse chorado copiosamente; quem sabe, se eu tivesse vivido o luto em sua crueza — submergindo na depressão, ocultando-me sob o cobertor ou buscando culpados e apontando dedos aos supostos suspeitos —, o peso seria menor. Em vez disso, embora sem aceitar ou compreender o real motivo, assumi uma fortaleza compulsória: tomei as rédeas da situação, organizei a cerimônia e forcei a continuidade da vida.
Ela era quem solucionava os impasses familiares, e vi-me na obrigação de herdar esse encargo. Não sei se terei forças para sustentar tal missão, mas tenho tentado, embora não tenha transcorrido sequer um mês desde o sucedido.
A parte mais excruciante é receber as "condolências" de conhecidos e estranhos. Que pêsames seriam esses? Por que haveria eu de desejar o "peso" alheio? Já não bastam os meus fardos? Ainda esperam que eu me sinta mais pesado, mais triste, mais prostrado? A circunstância, o local e o dia do ocorrido já me sobrecarregam o espírito. Não lancem seus pêsames ao vento; não é reconfortante. E pensar que, um dia, também proferi tais palavras a alguém... Peço perdão. Eu jamais havia experimentado a finitude tão de perto; desconhecia a magnitude dessa dor. Era um sentimento, até então, ignoto.
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